O DEM NA SUCESSÃO PRESIDENCIAL

RUY FABIANO

Excluído da chapa do PSDB à corrida presidencial, o DEM vive situação de desconforto político. Tornou-se o patinho feio da oposição, aliado necessário, mas problemático.

Embora tenha afastado os seus filiados que se envolveram no mensalão de Brasília – e, nesse sentido, dado uma lição ao PT, que conservou e prestigiou os seus mensaleiros e aloprados -, o partido saiu chamuscado. E tem contra si o fato de que tudo é muito recente.

O eleitor vota com a memória dos últimos meses. O mensalão do PT ocorreu há cinco anos; o do DEM, agora. Está no noticiário, gerando a cada dia desdobramentos que o expõem. Por mais que se tenha livrado dos infratores, vê diariamente o epíteto “mensalão do DEM” estampado nos jornais. E paga um preço alto por isso.

A primeira conseqüência é óbvia: o candidato tucano José Serra não o quer por perto. Em política, o contágio é imediato – e evitado. Diante disso, o partido cogita em partir para o tudo ou nada. E isso se materializaria com o lançamento de candidatura própria, mesmo com escassas chances de sucesso.

Está em exame entre os democratas a candidatura à Presidência da República da senadora Kátia Abreu (TO), presidente da Confederação Nacional da Agricultura e líder dos ruralistas. Ela adquiriu projeção nacional quando da extinção pelo Senado da CPMF, há três anos. Foi a relatora da proposta que baniu aquele tributo.

Antes, porém, já se destacava na luta contra as invasões de terra pelo MST. Ganhou destaque com a eleição para a presidência da CNA e, mais recentemente, com a instalação da CPI mista que investiga as atividades e fontes de financiamento ao MST.

É, pois, a única liderança conservadora de projeção no Congresso. Sua candidatura, além de estabelecer um contraponto às demais –que, sem exceção, se apresentam como de esquerda -, propiciaria ao DEM a chance de se defender dos ataques recentes e colocar em exame a agenda conservadora.

Desde o fim da ditadura militar, o receio de ser rotulado como direita fez com que muitos políticos que não avalizam a agenda da esquerda silenciassem. Ou fingissem apoiá-la. O Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3), por exemplo, lançado em dezembro do ano passado, provocou grande reação na sociedade, por mexer em questões tidas como pétreas.

Proíbe o uso de símbolos religiosos em locais públicos, libera o aborto, retira do Judiciário o monopólio de decidir sobre invasões de terra, estabelece censura oblíqua à imprensa, reabre a lei de anistia e prevê critérios do Estado para financiamento de obras culturais, entre outras coisas. Foi criticado e impôs recuos ao governo, mas não por razões ideológicas, mas de disputa de poder.

Essa é a agenda dos chamados movimentos sociais e de ONGs que gravitam em torno deles. Têm hoje presença maciça no governo e nos partidos de esquerda. Uma eventual eleição de Serra, por exemplo, não baniria esses temas da agenda, nem seus agentes. Poderia impor uma redução de intensidade na ação desses grupos.

Kátia Abreu seria o outro lado dessa moeda, abrindo o debate ao outro pólo, que até aqui só se manifesta – e se impõe – quando a discussão é econômica. O país, há anos, convive com o paradoxo de sustentar uma economia conservadora ao lado de um discurso político progressista. Essa ambigüidade tem, no plano de governo de Dilma Roussef, calcado no PNDH 3, o primeiro sinal de abalo.
Não se conhece ainda o plano de governo de José Serra, nem o de Ciro Gomes ou Marina Silva, que falam com muita cautela de questões econômicas, evitando falar em mudanças e optando pela evasiva de “melhorar o que está aí”.

Não há dúvida de que uma candidatura conservadora do DEM, mesmo sem chances aparentes, dará outra dinâmica ao debate sucessório, conferindo-lhe efetivo conteúdo ideológico.

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