O PMDB MAGOADO? VEJA SÓ, QUE COISA!
Cheias de pruridos, as mais expressivas lideranças do outrora partido do Doutor Ulisses, o PMDB, mostraram-se indignadas com a “ousadia” e com o desrespeito de Lula à legenda e ao seu mais importante interlocutor, o Presidente Michel Temer, quando sugeriu que o partido lhe apresentasse uma lista tríplice para a escolha do nome que comporá ou comporia, a chapa governista à disputa presidencial, junto com Dilma Roussef.
As razões de Michel Temer até que poderiam parecer razoáveis porquanto, conforme registra o colunista dominical do jornal Diário do Nordeste, do Ceará, Walter Gomes, para ele, a declaração do Presidente Lula teria sido inoportuna exatamente porque teria ocorrido no momento em que vídeos ligados ao “affair Arrudagate”, mencionam o nome do Presidente licenciado do PMDB Nacional em tais “tenebrosas transações”. E ainda, a operação da Polícia Federal em São Paulo, insinua que o Presidente da Câmara teria se beneficiado de doações consideradas ilegais, feitas pelo consórcio Camargo Correia/Queiroz Galvão, responsável pelas obras do Metrofor, em Fortaleza.
Irritado com a vinculação de tais fatos e diante de uma possível manifesta restrição do Presidente ao seu nome, Michel Temer já declarou que não pleiteou e nem pleiteará a vaga de vice na chapa de Dilma bem como deixará de ter papel proativo em angariar apoios para a ministra, dentro do PMDB. Isto apesar de, na eleição do Diretório Regional do PMDB de São Paulo, haver dito que o partido tinha, no momento, três correntes que se confrontavam em termos de sucessão presidencial: aqueles que querem candidatura própria; os que defendem uma aliança com o PT onde ele, Michel, se situava e uma terceira que defende o apoio à candidatura de José Serra.
Por outro lado, o líder do PMDB na Câmara dos Deputados, Deputado Henrique Eduardo Alves, que em 2002 teve que renunciar à sua indicação à candidatura de vice-presidente na chapa de José Serra, em face de denúncia de sua ex-mulher, de que teria mais de 15 milhões de dólares em paraísos fiscais, no exterior, provoca o Presidente Lula propondo que ele apresente os outros dois nomes da lista tríplice para Presidente, ao lado do nome de Dilma! “Para quem não sabe voar, o deputado é muito abusado”, reagem alguns petistas, lembrando uma velha piada! Aliás, a queixa do PMDB vem se acumulando desde a declaração de Lula, ao explicar porque teve que aceitar certas alianças político-eleitorais consideradas espúrias, por alguns puristas do PT: “Se Jesus Cristo viesse para cá e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer uma coalizão”. O PMDB assumiu e vestiu a carapuça e se fez Judas para a avaliação dos seus e dos outros.
Dentro dessa perspectiva, o que ocorrerá com o PMDB que, como todos sabem, nunca foi um partido nacional e nunca deixou de ser uma grande frente que, no passado, tinha propósito, ideais e objetivos e não apenas uma grande tenda para abrigar qualquer um que tivesse o que oferecer, em termos de votos, ao partido? É uma icógnita! O pleito nacional só não provocará maior esfacelamento da agremiação na proporção em que, sem nunca ter tido unidade, a não ser quando Ulisses era a amálgama que mantinha um resquício de compromisso com a Nação, prevalecerá, na disputa, a questão local e a lei do “salve-se quem puder”. Ou seja, sendo uma federação de partidos regionais ou um aglutinado de interesses tão específicos das conveniências locais, o PMDB manterá o seu princípio de que o bom não é ser o rei e sim ser o amigo do rei. Dessa forma, o PMDB nunca terá candidatura própria porquanto os seus líderes acreditam, piamente, que uma candidatura própria puder trazer, por acaso, algum bônus, trará ônus de magnitude muito maior .O PMDB sempre se colocará como coadjuvante da cena e não como ator principal, mesmo sendo o maior partido político do país em número de filiados, governadores, senadores, deputados federais, deputados estaduais, prefeitos e vereadores.
Dessa forma, durante a semana, a movimentação do partido será na direção da candidatura de Roberto Requião que, se não for para valer, servirá para aumentar o “botim” a ser cobrado de Lula, não mais na forma de cargos e posições, mas para ajudar a alavancar algumas candidaturas estaduais que estavam sem “eira e nem beira”.
O G-8 do PMDB – Michel Temer, Gedel Vieira Lima, Henrique Eduardo Alves, Wellington Moreira Franco, Eliseu Padilha, Eunício Oliveira, Fernando Diniz (falecido recentemente!), Eduardo Cunha, além do substituto de Fernando Diniz, no caso o Deputado de Brasília Tadeu Fillipelli – que hoje domina o partido e escanteou, de vez, a turma do Senado (Sarney Renan e companhia) mostra-se, tal grupo, inquieto e angustiado com o andamento das coisas, pois o partido quer garantir a posição privilegiada de ser o principal avalista da chamada “governabilidade” que, na verdade, hoje, de maneira mais honesta, numa linguagem mais crua, tal governabilidade seria chamada , tão-sòmente, de chantagem político-parlamentar.
Na verdade, o PMDB tem se mostrado um “case” que nenhum cientista político ou aprendiz de feiticeiro conseguiu decifrar. É um assombro, pois não é um partido nacional; não tem doutrina nem programa; não dispõe de unidade no País; é dominado por um pequeno grupo; não é solidário com ninguém e, mesmo assim, sem honrar a história e a tradição dos seus protohomens como Ulisses, Tancredo, Teotônio, Montoro, Freitas Nobre, Alencar Furtado e tantos outros, ainda consegue se manter como o maior partido do País! É um fenômeno que requer que cientistas políticos se debrucem sobre tal, em busca de alguma explicação convincente. O certo é que o PMDB, apoiado no G-8 e, agora, partindo para se ampliar para uma espécie de G-20, com certeza, uma vez, se dará bem e continuará sendo meio dono do poder. E a pergunta que fica no ar é, até que ponto uma reforma político-eleitoral poderia melhorar um quadro tão deplorável para a melhoria do processo de transparência e legitimidade da ação política de tal maneira que o espírito de Ulisses Guimarães voltasse a pairar e a inspirar, pelo menos, os novos quadros do partido? Em quarto lugar, o que se sonha é que chegará o dia em que o partido não agirá mais com a convicção e a certeza de que, o bom não é ser presidente mas amigo ou aliado do presidente, pois garante todos os bônus do poder sem ter os seus ônus.
O PMDB é um fenômeno só não maior do que Lula. Sem o que ter o que dizer, nem ter do que falar e sem currículo a apresentar, o partido continua o maior do País e tenderá a crescer nas próximas eleições. Desvende-se tal mistério porquanto, até agora, este cenarista não conhece nenhum cientista político que tenha ousado buscado explicação plausível para tal mistério.
Paulo Mendes,
As suas análises são de uma lucidez e tão apropriadas que só fazem enriquecer os meus comentários. O que você falou sobre o PMDB é de uma percepção deveras cristalina. O PMDB um dia, creio eu, ainda vai ser uma espécie de prostituta respeitosa quando, mesmo no pântano em que vive mergulhado, um dia resgata homens da dignidade de Jarbas, simon, luiz henrique, josé fogaça, requião e outros menos votados mas que mostram a face de idealismo, de compromisso público e de republicanismo tão em falta nos dias que correm. Um dia o espírito de Ulisses ainda baixa na cabeça de alguns líderes da agremiação.
Prezado amigo. Eu tenho apreciado essa movimentação do PMDB com um certo “deja vu”. Assim tem sido nos últimos 20 anos. O PMDB nunca é a noiva. Mas é o padrinho manhoso. Qual o papel de um padrinho em um casamento? O papel de testemunha privilegiada não é tão importante. Mas o papel de avalista. Nenhum dos governos constituídos por outros partidos (PSDB e PT) pôde escolher não ter esse padrinho. Mas o grande erro é pensar no partido como um partido. O PMDB são vários partidos regionais e que tem conformação variável naturalmente.
Uma coisa é certa. Se é ruim governar o país com o padrinho PMDB, é simplesmente insuportável governar sem ele. A frase que encerra sua análise é paradigmática:
“O PMDB é um fenômeno só não maior do que Lula. Sem o que ter o que dizer, nem ter do que falar e sem currículo a apresentar, o partido continua o maior do País e tenderá a crescer nas próximas eleições. Desvende-se tal mistério porquanto, até agora, este cenarista não conhece nenhum cientista político que tenha ousado buscado explicação plausível para tal mistério.”