O UFANISMO ENVIESADO

Leandro Amaral

Não é de hoje que os brasileiros, pelo menos na sua maioria, só expressam, com o coração e a alma, o seu ufanismo, o seu sentimento de nacionalidade e o seu amor pelo país em época de Copa do Mundo. Não existe outro evento no mundo capaz de paralisar o país, na sua totalidade, como um jogo da seleção canarinho pela Copa. Independente de se concordar ou não com a escalação do time ou com os métodos do seu técnico, o Brasil pára.

Longe dos gramados da Copa tudo é um pouco diferente. Uma mobilização como esta dificilmente ocorre em momentos cívicos importantes. A comemoração da independência, por exemplo, é mais afeita aos militares e aos governantes de plantão do que ao povo, propriamente dito. Os que não estão envolvidos nas cerimônias de comemoração do Dia da Pátria, ou aproveitam o feriado para viajar ou, se não podem, o aproveitam levando os filhos para assistir o desfile. Não se vêm bandeirinhas nos carros e nem tampouco as pessoas vestidas de verde e amarelo.

Na política também é assim. Nem os “caras-pintadas”, exigindo o impeachment de Collor, foi um movimento que nasceu no seio do povo. Na verdade, foi uma ação orquestrada por entidades representativas de determinados segmentos da sociedade, notadamente das entidades estudantis. E, com o apoio da mídia, o movimento se estendeu ao resto do país. Mas foi levado ao povo e não gestado por ele.

O momento maior de uma nação é o seu período de eleições. É quando deveriam ser expressados todos os anseios e aspirações dos cidadãos. É uma oportunidade ímpar, não só de alçar alguém ao posto de representante do país e de seu povo, como de retirar de lá aquele que não correspondeu ao que dele se esperava. Mas não se vê qualquer mobilização maior a não ser daqueles que vivem para ou de eleições.

Talvez a justificativa disto seja o descrédito dos homens públicos do país. Não que os jogadores e os técnicos da seleção não sofram, por vezes, este mesmo descrédito. Mas é diferente. Ninguém morre – talvez só por emoção ou por efeito de uma cardiopatia – e ninguém tem sua vida drasticamente afetada com uma derrota na Copa do Mundo. Já os danos sofridos com uma escolha política inadequada são enormes e catastróficos, principalmente para aqueles mais desprovidos de proteção do estado.

E é por isso que não veremos, ao menos em curto prazo, uma mobilização verde e amarela nas eleições. E não adianta nada que alguns expoentes políticos se queixem que os brasileiros não demonstram o mesmo ufanismo da copa do mundo nas eleições. Porque a culpa disto é somente deles e de sua classe que, se comparada à rejeição ao Dunga, poderíamos dizer que o ex-técnico é um sujeito bem-amado.

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