O PAÍS É UM ESGOTO SÓ!


Sem qualquer outra conotação pejorativa em face dos  desvios de conduta e de outras aberrações que, quase diariamente se assiste no palco da vida dos brasileiros,  chegando a não surpreender pelo inusitado ou extravagante que pareça, o título do comentário não diz respeito a tais fatos e episódios mas a uma questão tão grave que se coloca diante do País. Problema tão grave quanto a presença, força e capacidade de gerar medos e transtornos como o crime organizado, quanto a questão do menor delinquente ou quanto a precariedade das ações e da urgência que não é dada ao transporte de massa nos grandes centros urbanos, o problema do saneamento ambiental é, como que, uma vergonha nacional.


Duas constatações  tristes foram trazidas ao conhecimento dos brasileiros. Dois fatos extremamente decepcionantes e preocupantes. A primeira é a constatação de que 55% dos brasileiros não tem acesso ao esgotamento sanitário. A segunda é que os investimentos na área de saneamento ambiental vem caindo nos últimos anos, para o desespero de médicos e de sanitaristas, na proporção em que se constata que, no Brasil, um percentual muito elevado da mortalidade infantil decorre de contaminação hídrica. Ou seja, sem água tratada e com esgoto a céu aberto a tendęncia  é que se propaguem doenças derivadas da contaminação da água. É revoltante constatar que os homens públicos do Brasil, embora tenham conhecimento e consciência de que cada real gasto em saneamento reduz em, até cinco vezes, os gastos em saude  publica, não assumam a responsabilidade sincera e real de priorizar gastos em tão relevante e urgente matéria!

Ou seja, todos sabem da relevância e da urgência das ações na área de saneamento ambiental, particularmente no caso do esgotanento sanitário, diante de todos os problemas decorrentes da precariedade de tais serviços para a saúde publica do País! Lamentavelmente nada de sério  se faz e, até nesmo o que foi programado de gastos para o setor, vem definhando, ano a ano e comprometendo cada vez  mais a saúde pública  no País!

E, por incrível que pareça o enfrentamento do problema nào é tão difícil e, determinação  e vontade politica, se colocadas a serviço da causa podem propiciar resultados deveras importantes e relevantes. Tome-se como exemplo a cidade de Fortaleza que, em 1975, não dispunha nem rede de esgotos — toda a cidade era atendida por fossas sépticas que, na maioria das vezes, nem muito sépticas eram! — e nem de abastecimento d’água a não ser uma pequena rede que não atendia sequer a 5% da população da  cidade. Todos domicílios eram atendidos por cacimbas, cacimbões, poços semi-artesianos, etc. o que, convenha-se, considerando que a cidade é quase toda  plana, sendo o lençol freático quase a nível do solo, no período chuvoso, a tendência era que as águas das chuvas, a subida do lençol freático e a elevação do nivel das águas dos poços e cacimbas, misturavam-se o compreendia um verdadeiro estuário de doenças geradas por contaminação hídrica!

Aquela época o cenarista, recém nomeado secretário de planejamento e coordenação do estado do Ceará, tendo tomado conhecimento de um estudo que mostrava que 55% da mortalidade infantil derivavam de contaminação hídrica, estabeleceu como o seu grande projeto e sonho enfrentar o desafio considerado quase impossível pois demandava uma soma absurda de recursos que o estado não dispunha nem t8nha capacidade para mobilizá-la. E o governador do estado, dentro do pragmatismo que lhe era peculiar, apesar da admiração é-o respeito que tinha para com o homem que havia coordenado a montagem de seu plano de governo, quando insunuado pelo seu auxiliar descartou a ideia mesmo que sendo a implantação da primeira etapa do projeto que compreendia prover esgoto sanitário para uma das suas bacias, no caso a bacia do Meirelles.

Enquanto isto o cenarista, como uma idéia fixa, buscou montar o projeto inicial que compreendia o emissário submarino de 7,5 kms de extensão mar adentro; um interceptor oceânico e cerca de 880 kms de rede. Quanto mais o secretário se empolgava com a ideia mas a sua insistência irritava o governador. Mas, tal qual um chato de galocha, o cenarista insistiu até o ponto em que o governador, cansado daquela cantilena disse: Paulo, mais uma vez aviso que não tenho dinheiro e mesmo que t8vesse não iria fazer obra enterrada. Se você conseguir recursos a fundo perdido da União, então vá em frente com esse seu sonho mirabolante”!

Projeto debaixo debaixo do braço, o secretário seguiu para Brasília e numa oportuna e inteligente articulação, trouxe para a causa o Senador Virgílio Tavora, inconteste e prestigiado líder nacional, o “quase” filho do Presidente Ernesto Geisel, no caso o cearense Humberto Barreto e, contando ainda com os parlamentares redpresentantes do Ceará, liderados por Virgílio. Como o senador tinha forte influência sobre o Ministro do Planejamento, o piauiense João Paulo dos Reis Velloso, a tarefa foi levada a efeito e, por incrível que pareça, os recursos foram garantidos! Vitorioso, o cenarista voltou ao estado e, aum governador surpreso, pediu autorização para mobilizar as áreas técnicas e, pasmem todos, em dois anos, este etapa do esgoto estava pronta. E, o restante seria muito mais fácil de concretizar pois a parte fundamental da obra, o emissário submarino estava pronto.

Foi em 1978 a conclusão da etapa primeira do esgotamento sanitário, o que tornou Fortaleza, depois de São Vicente, em São Paulo, a ser a segunda cidade com emissário submarino a servi-la! Assim fez-se a obra considerada impossível, inviável e sem recursos capazes de cobrir investimento tão alto, sem que o estado despendesse recursos próprios! Foi considerada a obra do século e se o Governo Adauto Bezerra nada mais houvesse feito, teria construído o que foi denominado a obra do século e, tendo direito a uma bela escultura à Beira-Mar, de autoria do artista e escultor cearense Servulo Esmeraldo!

Essa a saga de uma obra que, se os governos houvessem dado continuidade no mesmo ritmo, desde 1990 Fortaleza teria toda uma cobertura de esgotamento sanitário capaz de reduzir, significativamente, os índices tão dramaticamente vergonhosos que a saúde pública do Ceará apresenta nos dias atuais. É por isto, sem excessos, diante da dramaticidade do quadro sanitário do País o Brasil, realmente, é um esgoto só!

 

 

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