UM PAÍS SEM PRUMO E SEM RUMO!

O cenarista, embora um otimista incorrigível, se pergunta, com uma certa perplexidade, quais as razões pelas quais, um País, com todas as potencialidades e sem estigmas da natureza a pertubar-lhe os caminhos de expansão e de crescimento — terremotos, maremotos, tsunamis, desertos, etc –; sem problemas e desavenças com os seus vizinhos e sem outras tormentas como é o caso de tantas outras nações do mundo, vive o  Brasil quadro tão difícil e tão complexo! No campo politico, até bem pouco, exaltavam-se as características de solidez de suas instituições pois que as possibilidades de rupturas ou de sérios abalos não se vislumbravam. Isto graças a sua formação histórico-cultural, fundada em uma penosa mas difícil conquista de unidade territorial e na construção de uma unidade cultural — um só idioma falado por 210 milhões de brasileiros em tão extenso território!

Assim, era um País “abençoado por Deus …” que não  corria os riscos de desavenças territoriais ou outras, fruto de diferenças culturais profundas.

E isto foi dito e provado por alguns momentos cruciais como foram os “impeachment” de Collor e Dilma; a operação Mensalão,  que envolveu vários políticos e quase leva a renúncia de Lula e a operação Lava Jato que prendeu muita gente graúda. E,  tal operação ainda mantém figuras marcantes da vida  nacional “fora do jogo” e que, ao completar quatro anos, continua desvendando crimes e desvios de conduta e, consequentemente, tendente a ainda mexer em novos vespeiros. Aliás estão a agyardar a sua ação os fundos de pensão, as aplicações do BNDES, aqui e no exterior e, a avaliação de outras instituições de peso no País. E, o mais relevante de tal mobilização  para limpar a sujeira do País, não foram apenas os recursos devolvidos aos cofres do País, mas o que ela tem promovido de  exemplos nos estados, o que tem conduzido  à decisões graves como foram, entre outras, as cassações de dois governadores!

Mas, apesar de todos os fatos que ensejam uma avaliação esperançosa e até otimista sobre os rumos que o Brasil tomará, alguns episódios recentes levantam dúvidas e incertezas sobre o ambiente que ora se forma no País. As declarações cheias de medos e temores do Ministro Fachin que se sente e sente a família ameaçada pelas “suas” vítimas de condenação, como relator da Lava Jato no Supremo e o episódio dos “ataques sofridos pela comitiva de Lula no interior do Paraná” chamam a atenção para esse climat de intolerância, belicosidade e beligerância que tomou conta do País criando-se uma perigosa divisão do “nós contra eles”!

Também há de se considerar como características estruturais e institucionais favoráveis ao clima de entendimento que prevaleceu até bem pouco na sociedade brasileira, o fenômeno da miscigenizaçào racial e étnica que sempre  representou o necessário freio para que o país não sofresse conflitos étnicos ou raciais pois, esse  chamado “conceito epistemológico que o mulato” estabeleceu, foi o instrumento fundamental para que não se distinguissem cidadãos de diferentes níveis e para que, o fato de todos os brasileiros, como uma vez já afirmou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso,  “terem um pezinho na cozinha”, levou a que não se exacerbasse sentimentos de ressentimentos e de ódios. Ou seja, o conflito étnico nunca se mostrou, de maneira explosiva, tão agressivosm  e tão explicito em países marcadamente definidos como racistas.

Se um possível “apartheid” não ocorreu por diferenças de raça e de cor, que para alguns países, tornaram-se  quase insuperáveis, da mesma forma que  possiveis atritos e desavenças face a diferenças de credos religiosos, aqui, por exemplo, nunca estiveram presentes. Tudo transcorreu ou decorreu a partir de uma convivência pacífica, talvez oriunda de um fenômeno específico  que aqui se fez presente que foi o chamado sincretismo religioso. Embora um País dito “eminentemente católico”, as pessoas faziam concessões as outros credos e religiões, se não professando as suas crenças mas, as aceitando  na espera das suas graças e benevolências, como ocorreu com o ubandismo, com o protestantismo, em todas as suas variantes, com os Kardecismo e outras religiões.

Assim, o que hoje assusta a todos é que a sociedade como um todo, transmudou-se de tal maneira que parece estar marcada por uma espécie de um sentimento presente em muitos grupos sociais, de uma espécie de sede de vingança, não se sabe contra o que ou contra quem, especificamente.  Percebe-se uma vontade de resolver ou fazer justiça com as próprias mãos e o desejo de execrar figuras públicas de tal modo a levá-las não apenas ao constrangimento e impor-lhes agressões verbais  e, muitas vezes, até mesmo, agressōes  fisicas!   Por que essa mudança de atitude e comportamento daquele que era visto como “ o homem cordial” ou como uma sociedade suficientemente festeira a não abrigar sentimentos de ódios e ressentimentos?

Todos têm ciência de que hoje quem domina os grandes centros são líderes do tráfico de drogas, de armas e da ação do crime organizado. Todos admitem que a corrupção na justiça e na polícia fez surgirem estruturas deveras perigosas e ousadas como as chamadas milícias. Também é reconhecida a precariedade do sistema presidional, a precariedade e falta de políticas adequadas das casas correcionais para menores, além da dominação territorial por facções do crime organizado. Porém é mister que se diga que tudo isto não se forjou da noite para o dia. A negligência, o despreparo, o desaparelhamento, a falta de “Inteligentzia” e de um sistema eficiente informações, por parte da polícia,  além da não integração das forças repressoras desses desvios de conduta, respondem por muito desse quadro.

Não obstante tais constatações que geram a insegurança, a incerteza e o medo, é fundamental ressaltar que pesaram muito nos sentimentos que hoje dominam os brasileiros — de mágoa, de ressentimento, de decepção e de quase ódio — os perversos efeitos da crise econômica que se abateu sobre o País, levando ao desespero uma parcela ponderável dos quase catorze milhões de brasileiros. Também, a profunda decepção da população como um todo para com os homens públicos, os dirigentes e representantes populares diante da pororoca de denúncias e de prisões em face da quantidade de desfalques, desvios e roubo de dinheiros públicos pesou muito na formação que domina mentes e corações dos brasileiros. Ademais, a desfaçatez dos acusados e, ainda não penalizados e punidos, em continuar agindo, à luz do sol, cometendo as mesmas diatribes, mostrando que a impunidade ainda impera no País. Ademais os últimos episódios protagonizados por membros do judiciário e, até mesmo pelo STF, além de uma justiça como um todo que perdeu a sua credibilidade, talvez expliquem esse pessimismo, essa indignação e essa revolta que hoje toma conta dos brasileiros.

Não tem mais a população maior empenho e nem qualquer crença na eficácia das manifestações populares, para conter vícios e abusos. O que hoje adotam são, muitas vezes, gestos de hostilidade como sofreu o Ministro Gilmar Mendes e o quase linchamento dos que estavam a recepcionar Lula no seu périplo eleitoreiro recentemente, pelo Sul do País. Não é para menos os desrespeitos das instituições para com o povo. A sociedade se sente bestificada  com, por exemplo,  a atitude do STF no processo de julgamento do habeas corpus da defesa de Lula. E tudo começou com um aparente gesto legalista do relator do processo ao criar uma inesperada figura da aceitação ou não do recebimento ou não do citado recurso. Não cabia  tal expediente pois o que se esperava era o julgamento do mérito do habeas. Mas não! Numa vergonhosa manobra perdeu-se toda a sessão para definir se a Corte receberia ou não o pleito para depois votar-lhe o mérito.

E o que se viu foi que não houve tempo para votar o mérito  e sim, para decepção e frustração de muitos,  a aprovação de uma proposta de adiamento,  para as calendas de abril,  da análise do mérito do tal habeas corpus.Com isto, espertamente ou não se sabe se com a conivência de alguém de dentro do STF, a defesa solicitou que se suspendesse qualquer decisão a ser patrocinada pelo Tribunal Federal de Recursos do  Rio Grande do Sul, autorizando o Sr. Juiz Sérgio Moro a mandar executar a sentença de prisão do ex-presidente. Mas, agora, só  algo começará a ocorrer depois da apreciação do Habeas  Corpus o que só se verificará no dia 4 de abril! Por que não se continuou o julgamento na própria noite da última quinta-feira ?Por que, se os ministros estavam  cansados, não se fez a sessão na sexta-feira, após a fatídica quinta?

O fato singular é que a sociedade está com os nervos à flor da pele e, cada evento tipo a decisão do STF, acirra os sentimentos de rejeição e de repulsa   as autoridades constituídas, as instituições e amplia as diferenças de opiniões entre os que faziam o poder até Temer assumir. Agora os que foram defenestrados do mesmo poder, fazem uma longa caminhada na busca de rearregimentar os seus simpatizantes, adeptos e seguidores, oferecendo-lhes a chance de voltar ao poder e ao usufruto  de suas benesses. E as discussões e as conclamações não são politicamente corretas estimulando-os ao incitamento e a sensibilização de até pegarem em armas, para defender o seu Líder e as suas idéias.

Finalmente, nos últimos dias, as decisões independentemente do mérito ou das justificativas das mesmas, o momento não era dos mais oportunos para tanto. Recuperar os direitos politicos do ex-Senador Demóstenes Torres, a mudança da prisão em regime fechado para regime domiciliar de Paulo Maluf e de Jorge Picciani, geraram indignação pois foram e sao nomes  simbólicos nos processos de corrupção do País.  Para muitos as decisões são, no mínimo, provocaticas  levando o País ao Deus dará!

 

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