POLÍTICA URBANA: POR ONDE ANDARÁS?

O desabamento do edifício no centro de São Paulo deixa saldo trágico e sequelas graves, não apenas diante das possíveis 44 vítimas fatais, mas dos prédios atingidos na vizinhança, além das constatações adicionais como a existência de cem outros prédios passíveis de enfrentar tragédias semelhantes, na cidade de São Paulo. A tragédia revela também que o governo — federal, estaduais e municipais — detém ou dispõe de mais de 650 mil prédios, terrenos ou edificações, espalhado por todo o País, mas que só tem registro oficial de cerca de 150 mil! E desses, quantos não se encontram com riscos de desabamentos como o que ocorreu em São Paulo?

Tais dados e informações revelam que, entre tantos problemas vivenciados pelos cidadãos urbanos, essa constatação, de graves e potenciais desdobramentos, conduz à conclusão que inexistem diretrizes e políticas destinadas ao enfrentamento da grave questão urbana nacional. Ou seja, a problemática urbana nacional, em face de seus desafios e dificuldades,  nunca foi objeto de preocupações e de ações objetivas por quem de direito. Se hoje moradores das cidades já convivem com a dramaticidade da violência e do crime organizado; com um déficit habitacional no País que atinge números deveras dramáticos pois são mais de 6,2 milhões de famílias, sem teto e ao Deus dará e se cerca de 55% das famílias não têm acesso ao esgotamento sanitário e mais de 15% delas ainda não dispõem de abastecimento de água potável, como se isso fosse pouco, ainda sofrem com o dramático e, espera-se, circunstancial problema do desemprego.

Ademais, o transporte de massa, caótico, precário e desorganizado, ainda se constitui em um sonho de uma noite de verão apesar da urgência que a realidade impõe à sua solução. Projetos de metrôs, VLT’s, trens urbanos, etc, não andam e o transporte de ônibus é de uma dramaticidade sem igual. Ou seja, não se dispõe de diretrizes e políticas para enfrentar tais desafios tão urgentes bem como para encarar problemas dramáticos como esse conjunto de tragédias urbanas que se consubstanciam na violência, no crime organizado, na questão do menor abandonado, no descaso com a terceira idade, na inexistência de qualquer ação isolada destinada ao enfrentamento do problema do saneamento ambiental, questão sempre adiada, além de todas essas mazelas que atormentam a vida dos moradores das cidades.

Tudo isto por falta de uma política de desenvolvimento urbano consciente, coerente e objetiva porquanto a velocidade da urbanização do País, a negligência do poder público e a insensibilidade da própria sociedade civil de pensar o seu hoje e o seu amanhã, deixam um triste e pesado legado, quase que insuperável, na sua dimensão e urgência, para o seu enfrentamento, através de soluções adequadas e oportunas.

Na verdade adjetiva-se muito e substantiva-se muito pouco. Os políticos e os homens públicos não vão além de frases feitas caracterizando uma retórica abstrata e que não gera sequer reflexões críticas. Os movimentos de protestos surgidos, com muita frequência, apenas refletem posturas e compromissos ideológicos ou partidários que nada dizem e nada tem a ver com o encaminhamento ou equacionamento de problemas tão críticos e graves. Na verdade, movimentos que se esperaria gerassem o que o cenarista chama de esperança consequente, nada agregam e nada dizem.

E tudo marcha não se sabe para adonde e não se sabe o quanto a “corda espichada” ainda aguenta de tensão e de pressão. Essa avaliação do cenarista, tão avesso a visões pessimistas, representa não apenas  uma apreciação desolada do quadro experimentado pelos cidadãos urbanos brasileiros — são mais de 80% da população total! — mas, acima de tudo, um grito de alerta diante do caos que já se pode antever que se instalará no País pois os problemas mais e mais se acumulam e mais e mais se potencializam. E, pode chegar a um momento em que uma sociedade sem fé e sem esperança, marcada já pela intransigência e pela intolerância, não encontre mais ânimo para repensar o seu itinerário.

É uma pena que o País do chamado “homem cordial” e que sempre se mostrou otimista e com uma invejável alegria de viver, hoje esteja mergulhado num pantanal de frustrações, desencantos e desilusões. E, com isto, também hoje domine o pessimismo e a descrença num amanhã melhor. Sem entusiasmo e sem crença no futuro, combustíveis essenciais à própria viabilidade do País, as possibilidades de expansão e de crescimento do Brasil perdem força e potencialidade.

Um país se faz com homens e com idéias. Mas, não seria só isto.  Sem ânimo, sem entusiasmo, sem equilíbrio emocional de seus concidadãos, dificilmente se construirá um futuro de desenvolvimento e de paz social.

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