Scenarium de 12/08

  • Senado: a crise é grande e séria.
  • Marina e Ciro

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Por que Lula defende Sarney?

Para uso externo, para garantir a governabilidade.

Para uso interno, pelo temor dos possíveis estragos a serem provocados pela CPI da Petrobrás e das Ong’s sobre o seu governo e sobre a candidatura de Dilma.

Para uso estratégico, garantir a sobrevivência de Sarney é tê-lo como refém e levar o PMDB a distanciar-se de Serra.

Recados, recados e recados!

Neste mês de agosto, conhecido como mês dos acontecimentos trágicos, do episódio deprimente das acusações entre senadores, o que se extrai é o seguinte: o PMDB, com a catilinária contra Simon e, o próprio Temer, apoiando nota da Executiva Nacional sugerindo que os “insatisfeitos’ deixassem o partido, foi um recado ao PSDB, como a dizer: “se com o Pedro Simon agimos assim, imagine contra vocês”. E isto levou a atitude pragmática de Arthur Virgílio de permanecer “pianinho” e ao discurso conciliatório de Papaleo Paes. Por outro lado, o próprio PT, amuado e acuado, decidiu não participar do enfrentamento entre a tropa de choque e o exército de Brancaleone, como ontem se comportou o PSDB.

Um outro recado da tropa de choque dado ao PSDB e ao DEM foi no sentido de que, tendo a maioria dos membros do Conselho de Ética, pode arquivar as denúncias contra Sarney e levar avante a denúncia contra Arthur Virgílio e, se Tasso Jereissati estrilar, encaminhar denúncia contra ele, também.

Nesse jogo de recados, fica um para a sociedade brasileira também. Provavelmente nada fará o Senado até o final do ano a não ser o aumento da descrença no parlamento, nos políticos e nas instituições.

Este semestre promete. A pauta do STF é bem polêmica. O TSE tem várias cassações a julgar e os partidos temem a rigidez e a atitude do próximo Presidente, o Ministro Joaquim Barbosa, além dos embates relacionados ao jogo sucessório.

O que realmente está em jogo.

Pintados para a guerra e com uma belicosidade exibida ao extremo, a tropa de choque do Senador Sarney, tendo à frente o Senador Renan Calheiros, coadjuvado pelo Presidente Collor, aprofundou a crise no Senado Federal.

O que motiva tal disputa tão acirrada? O que leva a esse striptease tão deprimente da Velha Casa? Por que perdem todos a compostura? Seriam esses desvios de conduta de atos secretos, passagens aéreas, nepotismo, etc.? Seria apenas um novo embate entre a situação e a oposição? Seria, por acaso, os desdobramentos já do que pode ocorrer em termos de sucessão presidencial na proporção em que se estimula a “guerra” entre PMDB e PSDB para que o PMDB não se “bandeie” para o PSDB?

Para alguns, que operam com teorias conspiratórias, seria o velho e competente jogo de Lula de fragilizar de tal forma Sarney, como o fez com Renan, para tê-lo como refém e controlá-lo em face dos interesses da candidatura de Dilma. Ainda para os que operam com tais teorias, seria uma forma de impedir que Sarney, em 2010, tivesse com toda a força porque o mesmo será o substituto eventual de Lula e se Lula resolver ser Senador ele próprio assumirá a Presidência e comandará o pleito.

Ao que parece, a crise é muito mais profunda do que as escaramuças, de baixo nível, estão a mostrar.

O que se admite é que o Senado chega a um ponto de desestruturação provocado pela presença de suplentes sem voto; de pequenos escândalos; de nepotismo, de inchaço de cargos funções, pessoas além da falta de cumprimento do seu papel fiscalizador, revisor e de guardião da Federação. Ou seja, o Senado hoje é questionado, inclusive, sobre a sua própria necessidade!

Será que bastará uma reforma da estrutura, que deverá ser proposta pela FGV para superar o caos?

Parece que não. A coisa é muito mais séria do que se imagina. Tudo isto requer um passar a limpo na missão institucional, no papel, na forma de escolha dos seus membros, entre outras providências.

Razões para Aécio

Sete razões para começar a acreditar que Aécio é quem será o candidato à Presidência ao invés de Serra:

• Serra não trocaria o certo pelo duvidoso e não embarcaria em uma aventura porquanto tem o Governo de São Paulo e a Prefeitura, ou seja, os  2º e 3º orçamentos do país;

• Aécio sai de Minas com, pelo menos, 70% dos votos o que não ocorreria com Serra em São Paulo. Aécio entra melhor no Rio do que Serra;

• Aécio pode levar Ciro a ser seu vice e “fechar” o Nordeste onde Lula tem mais capacidade de transferir votos;

• O neto de Tancredo Neves faz mais sucesso dentro do PMDB pois recupera o sonho da Presidência de Tancredo e é mais palatável e simpático para os vários grupos dentro do partido;

• Aécio é mais leve, mais simpático e mais jeitoso na costura de alianças;

• Aecinho tem a simpatia da mídia, do eleitorado jovem e feminino;

• Finalmente Aecinho não tem para onde ir, a não ser a sua candidatura ao Senado.

Last but not least, o PSDB, além de ficar com São Paulo e com a Presidência, o partido fragilizado nos estados, poderá se reconstruir com a candidatura de Aécio à Presidência.

A crise e suas lições

Da crise ora experimentada pela classe política e pelas instituições nacionais, algumas lições podem ser extraídas.

Em primeiro lugar, a política é impiedosa e cobra a hora de parar e de sair de cena. Perdendo-se o momento o resultado é o desgaste, o manchar da biografia e, quando muitos interesses estão em jogo, levar alguém a própria execração pública.

Sarney, por exemplo, teve dois momentos épicos em que poderia ter escrito belas páginas na história política do país. O primeiro foi quando, ainda jovem, apeou do poder o homem forte da política maranhense, Vitorino Freire, encerrando um ciclo de controle impiedoso do poder naquele Estado.

A segunda oportunidade foi quando o acaso e o infortúnio de Tancredo colocaram em seu colo a Presidência do país.

Na Presidência terminou os seus dias com uma inflação fora de controle e um legado discutível pois até a sua habilidade, jogo de cintura e capacidade de articulação política, para alguns analistas e cientistas políticos, foi forçada pela atuação  dos dois condestáveis, Aureliano Chaves e Ulysses Guimarães além da presença de um coadjuvante de peso e de expressão, no caso ACM.

Sarney é pessoa afável, educada e de fino trato. Ninguém pode negar que tenha espírito público. Mas Sarney dá a todos a sensação, pelos seus valores e práticas políticas, que além de Pinheiros, sua cidade natal, sente-se no exílio. É lamentável que pressões de interesses de familiares, amigos e correligionários tenham levado a que, ao invés da tranquilidade dos debates em tertúlias intelectuais da Academia, Sarney tenha ido para o mais devastador ambiente de sacrifício pessoal, moral e político.

Sarney: o outono do patriarca.

Sarney vive o crepúsculo outonal de sua carreira. É o coronel em seu labirinto.

Não interessa examinar o seu itinerário, sequer as suas ações e nem seus erros e acertos.

O que interessa avaliar é o nível de empobrecimento e desmoralização das instituições e a deterioração dos valores éticos e morais na política.

Diante dos horrores da guerra civil espanhola, num desabafo magoado e ressentido diante de tanta violência contra a dignidade humana, Miguel de Unamuno, o famoso escritor espanhol lamentava: “Me duele España!

Hoje, diante da leviandade, da hipocrisia e do descaso com os valores éticos e morais máxime promovidos pela classe política e pela dita elite dirigente do Brasil, o que tem reduzido, em muito, a credibilidade das instituições do país, só resta aos brasileiros de boa-fé parafrasear Unamuno e dizer: me duele o Brasil! E rezar para que, um dia, um punhado de cidadãos de boa vontade resolvam passar o país a limpo, renovar e modernizar as instituições e recuperar o sonho e a esperança para as novas gerações.

Porque a crise é mais séria do que se pensa e não se restringe a pessoas ou ao Senado, em particular. A crise é das instituições do país. Qual dos poderes não está contaminado por práticas aéticas, ilícitas e amorais? Como se coloca a imprensa nesse processo? E a Justiça? E como se pode aceitar a leniência do Presidente diante dos mensaleiros, cuequeiros, sanguessugas e outros eiros, bem como sua condescendência para com os desvios de conduta de políticos, apenas no afã de tê-los reféns de seus interesses?

Parece que Deus é mesmo brasileiro pois, diante de toda a crise institucional, de tantos erros na condução das políticas públicas e das limitações impostas pela capacidade gerencial do Governo Federal, a economia vai bem e sai da crise mundial até mais fortalecida.

Enquanto não forem promovidas as reformas institucionais do país, máxime a reforma político-eleitoral, dificilmente conseguirá a nação estabelecer um projeto de sociedade que recrie a esperança consequente para milhões de cidadãos hoje com medo e sem esperança. Na verdade, a crise do Senado, caso não haja um processo menos autofágico, poderá levar a dificuldades seríssimas, não apenas para a chamada governabilidade como também para que tenha o país eleições menos confusas e os efeitos da crise institucional seja menos traumático para a sociedade brasileira.