PEQUENAS EMPRESAS, GRANDES NEGÓCIOS E CONSTANTES DIFICULDADES!

Quando este cenarista criou tal programa, nele embutia uma série de providências por parte do governo e do Sebrae que promoveriam o segmento e diminuiriam a sua taxa de mortalidade. Passaram-se os anos e alguma coisa evoluiu mas, os dramas, as incertezas e as dificuldades dos pequenos negócios continuam na pauta do dia.

O segmento responde por 98% dos CNPJ’s do país, por 67% das ocupações e por 20% do PIB e é de suma importância na redução dos problemas sociais pela sua capacidade de superar a limitação da economia e gerar os empregos exigidos pelo estoque de desempregados e da entrada de novos pretendentes à ocupações no mercado de trabalho, através do chamado auto-emprego.
A micro e pequena empresa enfrenta momentos muito difíceis e, cada vez mais, se ampliam as suas dificuldades e aumenta a taxa de mortalidade entre os pequenos negócios.

O que chama a atenção é que o governo fez pelos pequenos! Aparentemente, nada. Na verdade não anistiou dívidas fiscais, não criou linha especial de crédito para renegociação de suas dívidas; não reduziu impostos; não reduziu taxas de juros; não ampliou as chamadas compras governamentais; não renegociou débitos e não inovou, criando, no BNDES, um departamento que pudesse trocar a dívida dos pequenos por cotas de suas empresas. Portanto, a família dos pequenos, penhorada, agradece qualquer manifestação do governo bem como espera que a Frente Parlamentar da Pequena Empresa na Câmara dos Deputados tenha uma atuação tão incisiva e competente quanto a Frente da Saúde e a Frente da Agropecuária!

LULA E AS QUEIXAS CONTRA O TCU!

A questão básica de Lula contra o TCU diz respeito ao fato de que a maioria dos seus membros, não são egressos do PT e, o comissariado resolveu meter na sua cabeça, que todos são tucanos de alta plumagem e o que querem é inviabilizar o seu governo ou, pelo menos, as suas obras e, com elas, a sua candidata. Até que ponto tais suspeições são procedentes, é difícil de afirmar ou negar. O certo é que, mesmo cometendo erros e equívocos, o órgão auxiliar do Legislativo para fiscalizar o Governo, no geral, tem dado mais contribuições positivas para a melhoria da gestão pública do que o contrário.

Para não ficar apenas no TCU, Lula agora reclama de todos os órgãos de controle interno e externo, tais como as auditorias das entidades governamentais; as procuradorias dos mesmos entes; a própria Controladoria Geral da União; o Ministério Público e da própria mídia!
Recentemente o Presidente adicionou à sua lista de “desafetos” ou dos que empatam as suas ações, os entes de controle ambiental. Na verdade, os excessos de todos os órgãos mencionados; a ânsia de holofotes e de mídia de outros; a falta de compreensão da urgência e da premência de certas obras e serviços; a burocracia excessiva; todos convergem para criar um cipoal de normas, exigências, diligências, etc. e tal, que irritam e tiram a paciência de qualquer um quando não destroem reputações e causa danos materiais e morais a homens públicos.

Mas, duas coisas devem ser ponderadas para avaliar melhor se essa gente está aí para complicar ou não. Em primeiro lugar, se porventura, antes de se decidir por uma obra ou serviço – claro que isto requer que o governo tenha planejamento estratégico! – por que o Executivo não promove uma rodada de conversas e troca de idéias com tais entidades e tenta resolver, previamente, os possíveis problemas que adviriam depois? Será que falta competência gerencial dos vários entes governamentais para promover estudos preliminares, antecipar obras e serviços e promover exame prévio daquilo que poderia ser levantado como falho, precário, obscuro ou incompleto nas suas propostas?

ATÉ TU, LULA?

A Igreja Católica e a maioria das igrejas evangélicas reagiram diante de mais uma declaração, no mínimo, imprudente, de Lula. Para justificar, talvez, a aliança de Dilma com a banda podre do PMDB e com outros partidos pequenos, com políticos com culpa no cartório, Lula disparou a frase que criou um alvoroço e reações indignadas frente a quem é cristão. Claro está que o povo mais simples entendeu que Lula não queria ofender a Igreja e nem o cristianismo. Apenas para enfatizar a razão de certas alianças consideradas, para alguns, espúrias, Lula disse que, se Jesus viesse a fazer política no Brasil, Cristo teria que fazer aliança até com Judas! Na verdade, se Lula houvesse dito que, como dizia Tancredo Neves, ao aceitar certas adesões consideradas espúrias pelos puristas de sua campanha, quando afirmou que “o que enche rio é água suja”, ou como disse um político do Ceará: “se você não pode com o diabo faça o diabo por compadre”, talvez não tivesse causado tanta celeuma junto à chamada “elite branca” do Brasil. Mas Lula é assim e, face a sua enorme popularidade, está se colocando acima do bem e do mal e com direito a exercitar o inalienável direito humano de dizer besteira. Só que está exorbitando!

A OPOSIÇÃO EM APUROS!

Quem tem acompanhado as angústias e as inquietações da oposição ou das oposições, assistindo, inerte e perplexa, a desenvoltura do Presidente Lula no patrocínio de sua candidata, acha que talvez ela ou elas, estejam perdendo terreno ou, pelo menos, o “timing para uma decisão que conduza a escolha de um candidato verdadeiramente competitivo. Ao mesmo tempo, Lula busca desautorizar as oposições, caracterizando-as como a elite branca, privatista, preconceituosa, paulista e outros adjetivos e, metendo na cabeça do povo de que tudo de bom que ocorreu até agora no Brasil, foi por obra e graça Dele, Lula!

 E a oposição ou oposições não conseguem ”engatar” um discurso capaz de sensibilizar o eleitorado no sentido de que Lula não é o candidato e que Lula não tem herdeiros nem alguém que, bem ou mal, simbolize o grande vencedor, o mito, “o cara” que ele é.  Dizer que tudo o que ele fez são coisas que os bons ventos internacionais propiciaram; que foi em cima da base que os antecessores construíram; que ele promoveu um assistencialismo desenfreado e que não ajudou às pessoas, a definitivamente, saírem da miséria; que o pré-sal é um engodo e outras críticas mais, não conduzirá a nenhum êxito para as oposições. Ninguém combate um mito tentando desconstruí-lo, atacando-o. O que se pode fazer é estimular, no mito, a sua autodestruição. Contra Lula nada pode ser feito. Quanto aos planos de Lula muito poderá ser feito. Tirar o foco dele e colocar, o foco, no seu entorno, pode ser um caminho. Um discurso a La Marco Antonio no assassinato de Júlio Cesar, poderia ser interessante. Mostrar que a eleição de Serra seria a única coisa que Lula aspira pois, sendo o gestor que é, Serra vai demorar dois a três anos para reorganizar o governo, com medidas de contenção de gastos, redução do custeio e de contratação de pessoal, exigência de desempenho na gestão da saúde e da educação além de correções de rumos na previdência social. Tudo isto, gerará um saudosismo dos bons tempos de Lula e, necessariamente, pode ensaiar uma espécie de queremismo como ocorreu à época de Getúlio!

 Não adianta angustiar-se face à indefinição de Serra nem a inquietação de Aécio. Nem tampouco diante da velocidade em que se estão definindo as sucessões estaduais. O fundamental é examinar qual o discurso a estabelecer e, o mais rápido, com discurso, estratégia e um interessante esquema de mídia e marketing, colocar o bloco na rua.

LULA SOLTA O VERBO!

Já têm sido costumeiros os destemperos verbais do Presidente Lula quando resolve ou reagir contra as tímidas e ainda empobrecidas argumentações e criticas da oposição ou deitar falação sobre assuntos, pessoas e/ou temas que não são do seu completo domínio, pelo menos, intuitivo.

E como o Presidente, surfando sobre a sua enorme popularidade a nível interno e o reconhecimento a nível internacional, hoje não estabelece mais limites para observações, às vezes, bastante polêmicas. Aliás, Lula hoje se sente acima do bem e do mal e sem limites para falar sobre qualquer coisa, pessoa, fato ou, até mesmo, sobre o futuro!

Agora mesmo, ao fazer a defesa da tentativa do governo de intervir nos negócios internos de uma empresa privada nacional, com grande inserção internacional, no caso a Vale do Rio Doce, o Presidente deixou, para alguns analistas, a clara idéia de que, todos os seus últimos gestos e atos, direcionaram-se para ampliar ou pelo menos propor, uma mais ousada e mais agressiva ação e intervenção do estado brasileiro. Tanto é que, alguns jornais e revistas nacionais, interpretaram que Lula agora é defensor, intransigente, do chamado estado máximo.

Provavelmente Lula apoiou-se no argumento difundido por vários especialistas e agentes públicos de que, o mercado, exageradamente defendido pelos chamados liberais, havia sido incapaz de cumprir o seu papel, máxime diante da crise econômica que ainda se alastra pelo mundo, exigindo-se, portanto, a intervenção do Estado no mercado financeiro, nas bolsas, nas empresas e nos próprios rendimentos bem como no consumo das famílias.  Se não fora a injeção monumental de recursos públicos nas economias mundo afora, os rigores da crise econômica teriam sido muito mais intensos. A partir dessa lógica se constrói uma velha teoria de um estado muito presente, forte e interventor na economia, na sociedade e na vida dos cidadãos.

Apoiado nessa visão parcial e circunstancial, Lula, orientado pelo comissariado, resolveu replicar a República Bolivariana de Chávez, de outra forma. Ou seja, ampliar os limites e atuação do Estado, além da sua já excessiva presença na sociedade brasileira.

Já anteriormente, Lula cobrou, de forma dura e incisiva, inclusive com ameaças, que a EMBRAER estabelecesse a sua política de investimentos, não respeitando um mercado internacional bastante competitivo, uma presença maciça de acionistas quer nacionais quer internacionais e a sua carência de recursos externos para viabilizar os seus investimentos e a sua expansão! Ou seja, havia a EMBRAER que subordinar a sua política de investimentos pela ótica, exclusivamente, do governo para atender as chamadas “prioridades” nacionais.

O Presidente já havia recomendado a expansão do Banco do Brasil, o que o fez adotar uma política de aquisições de bancos e expansão de negócios no exterior, voltando assim a ser o maior banco do país sem que se saiba, até hoje, qual a sua missão institucional.

Por outro lado, o Presidente fez duras cobranças ao presidente do Fundo de Pensão PREVI, para que ajustasse a sua política de investimentos às prioridades nacionais, como se os recursos de tal fundo, como dos demais, não pertencessem aos seus cotistas, ou seja, aos funcionários do Banco do Brasil, da Petrobrás, da Caixa, do Banco Central, etc. e sem que eles tenham conferido ao Presidente a delegação de competência para usar e abusar dos recursos que lhes garantirá as suas aposentadorias!

A discussão, recentemente abandonada, qual seja, de que tipo de estado o pais precisa, se faz realmente necessária e oportuna ao Brasil e é fundamental que volte à pauta ou a agenda nacional, quando dos debates da sucessão presidencial. Isto porque, não é tão simples fazer a opção entre estado máximo e estado mínimo. A discussão é qual o estado necessário, legítimo e ajustado às exigências da contemporaneidade de um mundo globalizado, interdependente e que busca permear todas as suas políticas públicas com a idéia da sustentabilidade.

Portanto, não tem sentido defender-se um estado mais amplo, mas sim um estado mais forte, pela sua capacidade regulatória, pela sua competência de estabelecer políticas publicas inseridas nos conceitos modernos de gestão pública e pela legitimidade ao não intentar impor a ditadura das aspirações ou se portar como um Big Brother, imiscuindo-se na privacidade do cidadão, limitando o seu ir e vir e cerceando as suas liberdades fundamentais.

Um país, como o Brasil, que já apresenta uma carga tributária enorme, tem que se conter e não invadir a competência da iniciativa privada sob pena de, sistematicamente, não contar com meios para atender às suas responsabilidades constitucionais básicas como ora sói ocorrer com educação, saúde, saneamento ambiental, segurança, defesa nacional e etc.

QUEM APOSTA?

Este Scenarium, faz cerca de seis meses, apontou aqui várias razões porque acreditava que o candidato do PSDB seria Aécio e não Serra. Continua a acreditar e a achar que, para as atuais circunstâncias, Aécio é mais palatável e mais adequado, como produto para contrarrestar o discurso do PT, do que Serra. Em primeiro lugar, Serra é a cara do PSDB, do Fernando Henrique e daquilo que foi estigmatizando o partido como o da defesa  elite branca, presunçosa, arrogante e capaz de mandar o povo, se lhe faltasse pão, comer brioche, como assim se expressou a decapitada Rainha de França. Se o discurso de Lula e do PT é contra FHC e seu governo, Serra o encarna mais do que qualquer pessoa.

Em segundo lugar, Aécio ou, até pelo fato de ser chamado carinhosamente de Aécinho, de origem, é PMDB, da parte boa e não da chamada  “banda podre” e, traz no nome, na história recente, o legado de um homem que, após costurar a transição do estado autoritário para o estado democrático de direito, teve a vida ceifada pelas “trapaças da sorte”. Aécio Neves é Tancredo reencarnado, é Ulysses vivificado, é Teotônio sonhado.

Por outro lado, Aécinho não é São Paulo, não é paulista e não permite espaço para a propaganda violenta, face o norte, nordeste e até mesmo o centro-oeste, de que, após um período em que os trabalhadores e nordestinos tiveram o poder, o poder se devolve aos paulistas, segundo os petistas “tão violentamente preconceituosos com o Nordeste”. Tudo falácia, mas, para quem conhece o povão da região, o discurso pega. E pega, até mesmo, para uns, ditos alfabetizados, metidos a intelectuais, que ainda vivem a teoria estruturalista dos tempos de CEPAL.

Aécinho, por sua vez, desde o primeiro momento, não é um anti-Lula mas um pós-Lula, com trânsito com todo mundo e capaz de fazer costuras políticas tal qual os mineiros de velhas tradições eram capazes de fazer.

Também, junto ao PMDB, ao DEM e a outros partidos que não se sentem bem junto ao PT, Aécio é mais palatável para um entendimento do que José Serra. É, hoje, o mais carioca dos mineiros e o mais mineiro dos nordestinos. E, se for ele o candidato, até Ciro virá para ser seu vice.

Serra, embora seja a melhor expressão de gestor público do país, não tem a simpatia, o carisma e o jogo de cintura de Aécio. Também não sai como Aécio, com 70% dos votos de seu estado. Ademais, não dispõe de muitos graus de liberdade como Aécio que, por enquanto, a única coisa que pode fazer é ser candidato é ser candidato a senador por Minas. E, se Serra se eleger ou Ciro se eleger, a sua vantagem de ser jovem, vai para o ralo. E se Dilma se eleger, com o compromisso de apoiar Lula para um mandato a partir de 2015, aí que as chances de Aécio são remotas, em termos de futuro político.

Por outro lado Serra não vai correr o risco de entregar a outrem, os segundo e terceiro maiores orçamento da República, para correr o risco de não ser eleito presidente e, consequentemente, além de encerrar a sua carreira política, desestruturar o que ainda resta de seu partido. Ao passo de que, se apoiar o nome de Aécio, terá o controle do partido, parte do mando do governo federal e, além de tudo, ajudará a eleger a maioria dos governadores do país para o seu partido ou para os seus aliados.

O leitor já pensou nisso? Se pensou, critique, comente e sugira outros argumentos prós e contra a tese acima esposada.

ANGÚSTIA, DESENCONTRO E INSATISFAÇÃO.

A estratégia de Serra em adiar para março a definição do PSDB do nome do candidato que enfrentará o candidato ou os candidatos de Lula, está gerando um processo de angústia, inquietação e, até mesmo, de insatisfação, não só no meio dos próprios tucanos bem como de seu principal aliado, no caso, o DEM. Claro que os possíveis apoios da candidatura tucana nos outros partidos, máxime o PMDB, também sofrem do mesmo drama.

A maioria acha que as oposições perdem tempo, Lula avança sem dar bolas para a Justiça Eleitoral e, até uma avaliação do STF, de que Lula não estaria agindo dentro da lei, opinião externada pelo próprio Presidente da Suprema Corte, ao invés de beneficiar as oposições, acaba tendo efeito contrário junto à opinião pública, na proporção em que pode ser explorado como se as mesmas não tivessem discurso para se contrapor a Lula e, estariam assim,  apelando ao “tapetão”.

O Presidente do PSDB Nacional, Senador Sérgio Guerra, com a habilidade que lhe é peculiar, de maneira cautelosa ,sugere que “os dois – no caso Serra e Aécio – não querem antecipar a decisão e, eles sabem mais do que a gente”, mostra uma tolerância e uma capacidade enorme de administrar conflitos, mas tal competência poderá não ser capaz de conter a explosão de problemas que começam já a ocorrer nas sucessões estaduais e, até mesmo, a nível da cúpula nacional de partidos aliados.

Aliás, a posição do Líder do DEM na Câmara, Deputado Ronaldo Caiado, diante da indefinição e da indecisão em termos da candidatura do aliado PSDB, afirmou que vai “montar a sua estratégia na sucessão de Goiás, de acordo com as conveniências do partido no Estado”. Por outro lado, o Presidente Nacional do DEM, Deputado Rodrigo Maia, em colisão com o morubixaba Jorge Bornhausen, resolveu declinar a sua preferência por Aécio Neves para ser o cabeça de chapa das oposições.

Até agora o tempo conspira a favor de Lula na proporção em que tenta empurrar, goela abaixo, a sua pesada candidata. Da mesma forma, vai tentando construir um discurso de que o “outro lado” é o “da arrogância, da presunção e da elite branca que, nunca olhou pro povo, esqueceu e preconceituou o nordeste e, com a sua privataria, quase vendeu o Brasil para os estrangeiros”. Por outro lado, com a economia indo bem, com a baixa renda ganhando melhor, com a volta dos empregos e com o discurso da grandiloquência – pré-sal, Copa do Mundo, jogos militares mundiais, jogos olímpicos -, mexem com o imaginário popular, aumentando a autoestima da “peãozada”, dando um tapa na boca da crítica, mantém a elite branca calada, pelos privilégios concedidos a bancos e a grandes grupos e, “vamos que vamos!”. E Lula, com seu charme, com o seu carisma, com a sua capacidade de falar para o povão e com o respeito e prestígio conquistados internacionalmente, atropela tudo e tenta fazer viável algo inviável que é a sua candidata.

Se o PSDB não decidir logo quem será o seu candidato, talvez em março, o que vai sobrar de apoios adicionais seja muito pouco diante das definições estaduais que estão ocorrendo a pleno vapor. É bom que Serra se lembre que o povo vive nos municípios e as suas aspirações, interesses e sonhos, estão lá. O estado é uma ficção do direito e a União é um péssimo substituto do que seria a monarquia sem qualquer charme e qualquer afinidade com a população. Lula tem porque construiu-se como mito.

NADA DE NOVO SOB O SOL!

A semana promete em termos de monotonia da normalidade. O Congresso já está operando a meia-bomba, sem grandes questões a tratar, a não ser o marco regulatório do pré-sal e a aprovação do Orçamento Geral da União, para 2010, peça esta sempre marcada pela ficção e pelo irrealismo.

 Na verdade, além de perfumarias a serem tratadas no Congresso, os únicos assuntos  que se ouve falar, são aqueles da prioridade  dos parlamentares, destinados a mover ações e articulações capazes de garantir a liberação de suas emendas e, além, é claro , dos cochichos e bochichos relacionados às articulações em termos da sucessão presidencial e, particularmente, em termos das sucessões estaduais.

 Nem o “achado” da agenda da  ex-Secretária da Receita Federal, comprovando que, de fato, esteve com Dilma Roussef no dia em que declarou que lá esteve e que foi por Dilma desmentida; nem o exercício do “jus sperniandi” pela oposição, diante dos comícios realizados por Lula em favor de Dilma no Nordeste; nem mesmo o “rolo” que continua a ser o inquilino desagradável na Embaixada brasileira em Honduras, mexerão com as preocupações do Congresso Nacional. As discussões e votações serão só de perfumarias e acessórios.

 Já no Executivo, a par de Lula hoje chamar, “na chincha”, o Presidente da Vale e determinar alguns investimentos que produzam respaldo, apoio e votos para Dilma, para que se  pacifiquem as relações entre o Planalto e a Companhia  sem que, para tanto seja preciso sacrificar Roger Agnelli, nem atender ao amigo Eike Batista e nem entregar o comando da Vale a Sérgio Rosa, Presidente da Previ, as coisas continuarão tranquilas e serenas. Para quebrar um pouco essa placidez e essa monotonia, provavelmente, um novo balão de ensaios do mestre de factóides do governo, Ministro Guido Mantega, no caso a ameaça de taxar os investimentos externos para segurar a valorização expressiva do Real, mexa, se não com os políticos, com a bolsa de valores.

 Fora isto, as negociações relacionadas aos nossos aviõezinhos, provocando a disputa de propostas e benesses dos três contendores, não dará em nada pois que a definição já está dada, por razões históricas, pela natureza do compromissos de transferência de tecnologias e investimentos franceses no Brasil através de sua indústria bélica,  aliada a razões de ordem geopolítica regional, os franceses já levaram esta.

 De alguma repercussão ainda, serão os atos de violência ocorridos no Rio onde, cada vez mais, o Governo não tem o que dizer a população e, a atitude pouco firme do Executivo Federal, diante dos atos de vandalismo, destruição e ameaças do MST, sem maiores consequências nem providências, serão outras marcas da semana!

EIKE, O BARÃO DE MAUÁ DO SÉCULO XXI!

Eike Batista ou Baptista, é o homem de negócios que hoje domina a cena brasileira pelo empreendedorismo, pela ousadia e pela capacidade de antecipar investimentos, obras e ações que já se lhe atribui, não só a pecha de visionário, mas, de empresário inovador e que, agressivamente, busca aproveitar as melhores oportunidades de negócios do país.

 Hoje, segundo a Revista Forbes, já é o homem mais rico do Brasil. É alguém que, mesmo diante da crise que os negócios enfrentaram no último ano; das perdas derivadas de aposta de seus diretores no câmbio; da volatilidade que as ações dos seus principais negócios experimentou, Eike, ao invés de perder dinheiro, diminuir o ímpeto e reduzir os investimentos, ousou mais ainda. E, diga-se de passagem, que as suas batalhas para viabilizar os seus investimentos foram sempre dificeis e enfrentaram complicadas questões relacionadas a licenças ambientais, problemas com países vizinhos e, “last but not least”, a ciumeira da concorrência. Mas, Eike tem “lábia”, tem “jogo de cintura” e sabe onde “as andorinhas dormem” e, habilmente, faz as suas costuras políticas, negociais e de alavancagem de recursos não só em bolsa mas de empreendedores internacionais convidados à participar das  mais diferentes parcerias. Eike já começa a se transformar num mito pois hoje é tido como uma espécie de Rei Midas ou como disse o jornalista Moreno na sua coluna de Domingo em O Globo, a respeito de um casal que, não conseguindo o marido atender as carências da mulher, ela reclamou em voz alta até que um vizinho, incomodado, gritou: “Chama o Eike, pô”!

COPA DO MUNDO, OLIMPÍADAS, GASTOS SOCIAIS E PRIORIDADES!

Inexistindo uma oposição consequente e consistente no país, a discussão que algumas pessoas pretendiam travar em torno da prioridade, da relevância e da oportunidade para o Brasil em sediar dois eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, ficou totalmente comprometida e, agora, também desproposital. Desproposital porque já são fatos consumados.

Isto porque perdeu-se a oportunidade de fazê-la, buscando talvez, demonstrar, com números, que tais investimentos seriam muito mais benéficos do ponto de vista da melhoria da qualidade de vida do povo brasileiro, se destinados à educação fundamental, à saúde pública, à mobilidade urbana, ao combate à violência e a recuperação da infra-estrutura de transporte e comunicações do país, do que em tais eventos.

Ou, pelo contrário, uma simulação técnico-científica dos efeitos,  diretos e indiretos; os impactos para frente e para trás em termos da atividade econömica; a capacidade de tais eventos forçarem a agilização, maior diligência e maior seriedade no que concerne ao enfrentamento dos maiores e mais graves problemas, do Rio, por exemplo, como o combate as causas da violência, a redução do caos urbano, a despoluição da Baía da Guanabara e das praias da Cidade Maravilhosa, talvez convencesse a todos os brasileiros da relevância, prioridade e importância dos eventos.

Notadamente os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro que, assim como os Jogos Panamericanos, beneficiarão quase que exclusivamente a cidade do Rio de Janeiro. E será que o Rio estaria potencialmente com mais meios do que Chicago para realizar tal evento? Em Chicago a população disse não ao evento diante do alto déficit enfrentado pela prefeitura, do rescaldo da crise econômica internacional e de outras prioridades que dominam as preocupações dos seus cidadãos.

  Alguém ou alguma instituição de estudos econômicos, sociais e políticos fez uma avaliação do que representou, para o Rio de Janeiro, os quase quatro bilhões de reais gastos com o Jogos Panamericanos? Inclusive, o que foi feito da infra-estrutura montada para garantir-lhe uso alternativo em benefício da população?

A história nos mostra exemplos positivos, como no caso de Barcelona, que após a realização das Olimpíadas inseriu a cidade no roteiro turístico mundial e exemplos não tão bons assim, como no caso de Atenas. No caso do Rio de Janeiro, após a realização dos Jogos Panamericanos, o que ficou de legado para a cidade? Como estão sendo aproveitadas as estruturas montadas para os jogos em prol da população? O Engenhão, por exemplo, carinhosamente apelidado de “vazião”, não tem condições sequer de receber jogos da Copa do Mundo. E a Vila Olímpica que até hoje não se conseguiu regularizar a documentação dos imóveis?

Talvez, aqueles que apóiam incondicionalmente o Governo, afirmem que a Copa do Mundo de Futebol, por exemplo, ao ser realizada em 12 cidades, exigirá uma série de investimentos não só na infra-estrutura física – vias, metrôs, veículos leves sobre trilhos, equipamentos de saúde, equipamentos hoteleiros, etc. – mas em ações e políticas públicas destinadas ao combate à violência e a outros males da vida urbana do país. Outros afirmarão que tais eventos atrairão uma soma significativa de investimentos privados internacionais e turbinarão a atividade turística, de tal forma, que rentabilizarão, numa visão mais compreensiva, todo o esforço feito pelo país. Outros ainda falarão de quanto tais conquistas representarão para a ampliação do respeito do país no exterior; para aumentar a auto-estima dos brasileiros e para melhorar o índice de felicidade dos tupiniquins.

Em parte, tais argumentos são até procedentes e válidos. Isto porque, sendo um país que não pensa e não age a médio e a longo prazo; sendo um país que não dispõe de políticas públicas que formatem o desenho do país que querem os brasileiros e a que têm direito, possivelmente, tais eventos, forçarão a construção de cenários que levem ao planejamento de intervenções em tais áreas urbanas e em certos segmentos sociais que permitam, ao fim e ao cabo, hierarquizar prioridades que acabem atendendo ao que o país precisa. Ou seja, tais eventos iriam representar o planejamento e as políticas de médio e longo prazo para o enfrentamento de questões cruciais do país. 

Ao que tudo indica, o Brasil acostumou-se a ser um país festeiro e que, mesmo não planejando o dia de amanhã e vivendo de símbolos e fantasias, acaba dando certo. Então que venham a Copa do Mundo, as Olimpíadas, o prêmio Nobel da paz, o Oscar e tudo que encha de orgulho e alegria, nem que seja uma alegria de carnaval, o maravilhoso povo brasileiro.